Pilhas de estéril na mineração: Dimensionamento e conceitos básicos
Pilhas de estéril fazem parte do dia a dia da mineração, mas vão muito além de “montes de rocha”. Seu planejamento envolve engenharia, segurança e meio ambiente: desde o dimensionamento correto, o uso eficiente do solo e o sequenciamento de lifts, até o controle de água e da drenagem ácida. Projetar bem essas estruturas é essencial para uma mineração segura, responsável e sustentável.

1. Introdução
1.1 Definição técnica
Estéril é todo o material natural removido durante a lavra que não possui teor econômico para o aproveitamento mineral nas condições tecnológicas, econômicas e legais vigentes do empreendimento.
Em termos práticos, é o material:
- sem valor econômico imediato;
- que não segue para beneficiamento;
- removido para permitir o acesso ao minério (ex.: cobertura, encaixantes, intercalações). (Estéril franco)
A geração de estéril é inerente à lavra, especialmente na mineração a céu aberto, devido a:
- Geometria dos depósitos minerais
- Necessidade de acesso físico ao minério
- Requisitos de estabilidade dos taludes
- Diluição operacional inevitável
Em muitos depósitos, a razão estéril/minério (stripping ratio) é elevada, o que significa que volumes muito grandes de estéril precisam ser movimentados ao longo da vida da mina.
As pilhas de estéril constituem uma das maiores estruturas antrópicas geradas pela mineração a céu aberto, sendo responsáveis por impactos diretos nos custos operacionais, na ocupação do território e nos riscos ambientais e geotécnicos. Em operações de grande porte, centenas de milhões de toneladas de material estéril são movimentadas ao longo da vida útil da mina, tornando o planejamento e a otimização do projeto dessas pilhas um elemento estratégico do planejamento de mina.
Tradicionalmente, o dimensionamento de pilhas de estéril foi conduzido de forma empírica ou orientada por necessidades de curto prazo, priorizando a menor distância de transporte. Contudo, essa abordagem tende a gerar subutilização de áreas, aumento progressivo dos custos de transporte e dificuldades para fechamento e reabilitação ambiental. Nesse contexto, metodologias baseadas em otimização matemática, análise geométrica e critérios ambientais passaram a ser desenvolvidas para suportar decisões mais robustas e de longo prazo.
Para os processos de definição de uma pilha de rejeitos devemos definir:
1.2 Estudos de base (antes do layout final)
(A) Locação e alternativa locacional
- topografia, restrições ambientais, APP, proximidade de cursos d’água, áreas de risco, uso e ocupação do solo
- avaliação de alternativas (minimizar área impactada e distâncias de transporte) — alinhado ao conceito de uso eficiente do solo, ou seja, projetar e operar estruturas minerárias de forma a maximizar o volume útil por área ocupada, minimizando impactos ambientais e custos indiretos, sem comprometer a segurança e a estabilidade.
(B) Estudos geológico-geotécnicos
- caracterização do estéril (granulometria, densidade/umidade, variabilidade litológica, comportamento de compactação, ângulo de repouso)
- fundação (solo/rocha, nível d’água, compressibilidade, capacidade de suporte, suscetibilidade a recalques e ruptura basal)
- parâmetros de resistência para análises de estabilidade (condições drenadas e com percolação)
A exigência de estudos geotécnicos + hidrológicos/hidrogeológicos antes da construção está explicitada na NRM-19.
(C) Hidrologia e hidrogeologia
- bacias contribuintes, cheias, erosão
- fluxo subterrâneo e risco de surgências/percolação interna
Esses estudos também aparecem como requisito prévio na NRM-1
1.3 Geometria e capacidade (dimensionamento geométrico)
Aqui entram os elementos clássicos: footprint (base), altura final, lifts/bancadas, bermas, talude geral, além de acessos/ramps.
Uma pilha de estéril pode ser definida como uma estrutura formada pela disposição sequencial de material estéril em camadas (lifts) empilhadas verticalmente, respeitando limites geométricos, geotécnicos e ambientais. De acordo com Puell Ortiz (2017), os principais elementos geométricos de uma pilha são:
- Área de base (footprint)
- Altura total da pilha
- Altura dos lifts individuais
- Ângulo de repouso do material
- Sistema de rampas de acesso
A configuração geométrica da pilha exerce influência direta tanto sobre a capacidade volumétrica quanto sobre o custo de transporte e a estabilidade global da estrutura.

- Volume por lift (modelo simplificado) e restrição de capacidade total
- Relação de redução geométrica (efeito do ângulo de repouso)
- Influência do número de lifts e do raio/base no custo total (trade-off base grande × mais transporte; base pequena × mais lifts/rampas)
1.4 Estabilidade (o coração do projeto)
No Brasil, a lógica é: você precisa demonstrar estabilidade com base em seções críticas e cenários de carregamento e água (operação e condição final).
Na prática, o projeto normalmente apresenta:
- mecanismo de ruptura global (talude geral)
- ruptura local (talude de banco)
- ruptura basal (fundação)
- efeito de água: aumento de poro-pressão/percolação (condição mais crítica)
E operacionalmente: inspeções e monitoramento entram como obrigação de gestão de risco (reforçado por comunicações institucionais sobre NRM-19).
2. Formas Geométricas e Dimensionamento da Capacidade
2.1 Geometria da Base
No modelo teórico apresentado por Puell Ortiz (2017), a pilha é inicialmente representada por uma base circular, pois essa forma maximiza a razão volume/área e reduz o perímetro exposto, favorecendo a eficiência do uso do terreno.
Para uma pilha composta por n lifts, o raio da base do lift i é definido de forma recursiva em função da geometria do lift inferior e do ângulo de repouso do material.
2.2 Volume de um Lift
O volume do lift i é calculado assumindo um tronco de cone:
onde:
- e = raios do topo e da base do lift
- h = altura do lift
2.3 Conversão de Volume em Tonelagem
A tonelagem do lift é obtida por:Ti=TF * Vi
onde:
- = fator de conversão volumétrica (m³/t), dependente da densidade e fragmentação do estéril
A capacidade total da pilha deve atender à restrição:
3. Disposição do Material e Sequenciamento Operacional
A disposição do estéril ocorre em duas fases principais:
- Deep dumping (formação da base): o material é disposto diretamente sobre a topografia natural, formando a área inicial da pilha.
- Alteamento progressivo: os lifts subsequentes são construídos por meio de rampas permanentes ou temporárias.
Segundo Puell Ortiz (2017), o número de lifts e a área da base apresentam uma relação não linear com os custos:
- Bases excessivamente grandes aumentam as distâncias médias de transporte.
- Bases muito reduzidas exigem muitos lifts, elevando significativamente os custos de rampa.
Essa relação dá origem a um ponto ótimo de custo mínimo, obtido por otimização matemática.
A otimização proposta por Puell Ortiz (2017) visa minimizar o custo total de transporte, considerando:
- Deslocamento em rampa
- Deslocamento em superfície plana do topo do lift até o centroide
A função objetivo é expressa como:
onde:
- = comprimento da rampa até o lift i
- = distância horizontal até o centroide do lift
- C = custo horário do caminhão
- = velocidades média em rampa e em plano
- TC = capacidade do caminhão
3.1 Restrições do Modelo
O modelo está sujeito a restrições geométricas, operacionais e de capacidade, incluindo:
- Inclinação máxima da rampa
- Altura máxima dos lifts
- Capacidade total da pilha
- Não negatividade das variáveis
3.2 Restrições Paramétricas
Estas variáveis não são otimizadas, mas controlam o comportamento do modelo:
- – Altura do lift (m)
- – Inclinação da rampa (%)
- θ – Ângulo de repouso do material (°)
- – Fator tonelagem–volume (m³/t)
- T – Tonelagem total requerida (t)
- – Custo horário do caminhão (US$/h)
- – Velocidades médias em rampa e em superfície plana
No caso do algoritmo proposto por Puell Ortiz (2017) o modelo de programação linear apenas otimiza uma geometria de tronco de cone. Para adaptar a base das topografias de um terreno é determinado áreas possíveis próximas dessa base circular, a partir de um procedimento interativo de forma que a área de cada lift é determinado a partir da base inferior.
4. Caracterização do Material e Implicações Ambientais
A caracterização do estéril é essencial para o projeto da pilha e deve considerar:
- Granulometria e grau de fragmentação
- Densidade aparente
- Ângulo de repouso
- Potencial de geração de drenagem ácida (AMD)
Embora o modelo de Puell Ortiz (2017) não trate explicitamente de encapsulamento de materiais geradores de ácido, os autores destacam que a presença de água e material reativo pode exigir mudanças no projeto, como realocação de material ou controle da permeabilidade.
A drenagem ácida de mina (DAM ou AMD – Acid Mine Drainage) é o processo geoquímico resultante da oxidação de minerais sulfetados, principalmente pirita (FeS₂), quando expostos simultaneamente a:
- oxigênio (O₂)
- água (H₂O)
Esse processo gera:
- ácido sulfúrico (H₂SO₄)
- redução do pH
- mobilização de metais potencialmente tóxicos
Em pilhas de estéril, a DAM é crítica porque:
- o material está fragmentado (maior área reativa),
- há infiltração de água,
5. Conceitos fundamentais: PAG e NAG
5.1 PAG – Potentially Acid Generating
Material potencialmente gerador de acidez.
Um estéril é classificado como PAG quando:
- contém sulfetos oxidáveis em quantidade relevante;
- a capacidade de neutralização natural (carbonatos, silicatos reativos) é insuficiente para neutralizar o ácido gerado.
📌 Importante:
PAG não significa que o material já é ácido, mas que pode gerar acidez ao longo do tempo.
5.2 NAG – Non Acid Generating
Material não gerador de acidez.
Um estéril é classificado como NAG quando:
- não contém sulfetos relevantes ou
- possui capacidade de neutralização suficiente para consumir a acidez potencial.
📌 Material NAG pode apresentar pH neutro ou alcalino mesmo após intemperismo.
5.3. Mecanismo geoquímico da geração ácida
A reação clássica simplificada da oxidação da pirita é:
Consequências diretas:
- liberação de íons H⁺ (queda de pH)
- aumento de sulfato na água
- solubilização de Fe, Al, Mn e metais-traço
📌 Em pilhas, o processo é lento, cumulativo e progressivo, podendo se intensificar ao longo de décadas.
5.4 Classificação geoquímica do estéril (PAG × NAG)
5.4.1 Ensaios estáticos (conceituais)
Utilizados para classificação inicial:
- Teor total de enxofre (S total ou S sulfeto)
- Potencial ácido (AP)
- Potencial de neutralização (NP)
Razão clássica:
Interpretação conceitual:
- NNP (Net Neutralization Potential) positivo → tendência a NAG
- NNP (Net Neutralization Potential) negativo → tendência a PAG
📌 Esses ensaios não predizem taxa, apenas potencial.
5.4.2 Ensaios cinéticos (comportamento no tempo)
Usados para:
- confirmar classificação,
- estimar velocidade de geração ácida,
- subsidiar projeto de pilha e licenciamento.
📌 Em processos de licenciamento brasileiros, ensaios cinéticos são frequentemente exigidos quando há risco de DAM.
6. Proibição implícita de sobrecarga descontrolada
Embora a NRM-19 não use o termo “taxa de alteamento”, ela exige:
- controle de estabilidade
- controle de deformações
- compatibilidade com a fundação
📌 Implicação direta para o sequenciamento
O alteamento:
- deve respeitar a capacidade de suporte da fundação
- não pode ser acelerado a ponto de gerar instabilidade ou recalques excessivos
👉 Isso impede, na prática:
- alteamentos muito rápidos
- empilhamentos altos sem consolidação intermediária
Resumo Final
O estéril é o material sem valor econômico removido durante a lavra para permitir o acesso ao minério. Sua geração é inerente à mineração, especialmente a céu aberto, tornando indispensável a existência de pilhas de estéril, que são estruturas projetadas para receber, armazenar e controlar grandes volumes desse material de forma segura, estável e ambientalmente adequada.
O dimensionamento e o projeto das pilhas de estéril envolvem a definição da capacidade (volume e massa), geometria (base, altura, lifts, taludes e bermas), sequenciamento construtivo, estabilidade geotécnica, drenagem e compatibilidade ambiental. No Brasil, essas estruturas devem atender às Normas Reguladoras de Mineração (NRM-19), às normas técnicas da ABNT (ex.: NBR 13029) e às exigências do licenciamento ambiental, devendo estar previstas no Plano de Lavra e fundamentadas em estudos geotécnicos, hidrológicos e hidrogeológicos.
Um conceito central no projeto moderno dessas estruturas é o uso eficiente do solo, que busca maximizar o volume de estéril armazenado por unidade de área ocupada, minimizando a área perturbada e facilitando a reabilitação e o fechamento da mina, sempre subordinado à estabilidade e à segurança.
Do ponto de vista ambiental, as pilhas de estéril podem ser fontes de drenagem ácida de mina (DAM), resultante da oxidação de minerais sulfetados na presença de água e oxigênio. Para avaliar esse risco, o estéril é classificado como:
- PAG (Potentially Acid Generating) – potencialmente gerador de acidez;
- NAG (Non Acid Generating) – não gerador de acidez.
A principal ferramenta inicial de classificação é o balanço ácido-base (ABA), do qual se obtém o NNP (Net Neutralization Potential):
onde AP representa o potencial de geração de ácido (associado ao teor de enxofre sulfetado) e NP a capacidade de neutralização do material. Valores de NNP negativos indicam tendência a PAG, valores positivos indicam NAG, e valores próximos de zero exigem investigações adicionais. O NNP é um ensaio de triagem, devendo ser complementado por ensaios cinéticos quando há risco de DAM.
Os resultados de PAG/NAG e NNP têm implicação direta no projeto e no sequenciamento dos lifts, orientando práticas como segregação de materiais, encapsulamento de estéreis reativos, controle de drenagem e planejamento do fechamento. Assim, a gestão da geração ácida não é apenas um tema ambiental, mas um parâmetro de projeto e operação das pilhas de estéril.
Em síntese, pilhas de estéril bem projetadas são elementos centrais da engenharia de minas moderna, integrando planejamento de lavra, geotecnia, geoquímica, economia e meio ambiente, e são fundamentais para a segurança, viabilidade econômica e sustentabilidade do empreendimento minerário.
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